| Há quem aviste Sigmund Freud no mosaico de personalidades da capa de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, álbum dos Beatles e marco histórico da música pop que comemora em 2007 seus 40 anos. Mas requer bom esforço identificar ali o pai da psicanálise, supostamente resumido a um escalpo grisalho entre Bob Dylan e Lawrence da Arábia. Uma forma mais fácil e garantida de saborear esse encontro entre o divã e a banda dos corações solitários está em Sargento Pimenta Forever (Libretos), coletânea de testemunhos de um entrosado time de psicanalistas em torno do impacto da obra e de seus reflexos em nossa cultura, desde o "verão do amor" de 1967 até os dias de hoje.
Em textos breves e numa colagem de gêneros - do ensaio à memória e à ficção - , sintonizados com a exuberância estética do próprio Sgt. Peppers, os 15 autores alinham-se ao longo das 13 faixas do disco, acrescidas de Penny Lane e Strawberry Fields Forever (que foram gravadas na mesma época mas lançadas em compacto, ficando de fora do projeto do álbum). Cada uma das músicas funciona então como mote inicial, ponto de abordagem livre, que, por vezes, suscita uma análise dedicada a versos e experimentações sonoras, e outras tantas abre caminho para reflexões conexas, irmanadas nos territórios da cultura, do amor, do comportamento.
Visível nos escritos, organizados por Robson Freitas Pereira, o envolvimento efetivo e afetivo com o tema e a narrativa pessoal desarmam o espectro do hermetismo com que a abordagem analítica é muitas vezes associada. A partir de experiências, procedências e gerações diversas, também se confirma que a ninguém é dado ignorar o sonho sessentista, tenha nascido antes ou depois de o declararem extinto. E, ao leitor, cabe confundir suas próprias lembranças a esse caleidoscópio lisérgico, imaginando por quantos anos mais os Beatles seguiriam traduzindo nossos desejos, não fosse aquela chata da Yoko Ono a se intrometer no caminho da psicanálise. |